“O Caminho da Esperança” *

Cardeal Francisco Xavier Van Thuan

A pobreza (pp 83-85 )

O menino Nguyen nasceu de pais de 8 filhos, família solidamente católica, onde já alguns membros tinham morrido mártires, em 17 de abril de 1928. Sentindo a vocação sacerdotal, estudou em seminários, até ser ordenado sacerdote em 11 de junho de 1953. Em seguida foi enviado a Roma para estudar Direito Canônico. De regresso ao Vietnã, foi nomeado reitor e professor do seminário, atpe que em 24 de junho de 1967 foi nomeado Bispo da Diocese de Nha Trang. Em 1975 foi transferido para a Arquidiocese da Capital, Hanoi, como coadjutor. Em 1975, tendo sido nomeado Arcebispo da cidade, que logo caiu nas mãos dos comunistas do Vietnã do Norte, foi chamado ao Palácio do Governo e preso (15.08.1975), inicialmente em prisão domiciliar e, logo depois, condenado a 13 anos de encarceramento na aprisão de Phu Khan, depois no campo “de reeducação” no Vietnã do Norte, de Vinh Phu. Mais tarde sua pena foi comutada em prisão domiciliar obrigarória em Giang-Xa, onde escreveu seu 2º e 3º livros. É do 2º, “O Caminho da Esperança à luz da Palavra de Deus e do Concílio Vaticano II”, que extraímos estes parágrafos sobre a virtude da pobreza. Após negociações entre o Vaticano e o novo regime de Vietnã, o Bispo foi libertado, com a condição de não voltar à terra natal. Partiu para Roma, onde foi nomeado Presidente do Pontifício Conselho de Justiça e Paz. Em 21 de fevereiro de 2001, São João Paulo II o criou Cardeal, mas, já em 2002, foi hospitalizado com câncer, falecendo em 17 de fevereiro deste mesmo ano. São João Paulo II presidiu seus funerais, celebrados na Basílica de São Pedro. No dia 18 de abril de 2007, foi aberto o processo de beatificação.

Se não quiser deixar-se sufocar pelos seus pertences, procure não levá-los na cabeça ou perto do coração. Coloque-os, antes, debaixo dos pés: poderão lhes servir de apoio (“escabelo”).

“Seja pobre quanto ao lugar onde mora. Seja pobre nas roupas que veste. Seja pobre no alimento que come. Seja pobre nas coisas que usa. Seja pobre no trabalho que faz” (Pe. Chevrier).

Se alguém consegue ficar satisfeito com pouco, é uma pessoa feliz, porque acha que de nada mais precisa. Quem sente necessidade de muitas coisas, em geral, é uma pessoa muito infeliz, porque sempre sene que precisa de tudo.

Se você olhar para tudo aquilo que lhe falta, vais se achar a pessoa mais miserável do mundo. Mas olhe para os outros: verá quantas pessoas estão piores do que você.

Mesmo que você não tenha nada, mas esteja ávido de possuir tudo, certamente não tem a virtude da pobreza. Pelo contrário, embora possuindo bens, mas estando desapegado deles, você é realmente pobre em espírito.

Não queira ser generoso com os bens alheios, enquanto é avarento com os próprios bens, nem queira desperdiçar as coisas que pertencem à comunidade.

Quem souber aceitar a humilhação e a falta de prestígio social, assim como as dificuldades materiais, sofrimento pela comida insuficiente, apesar do trabalho contínuo e cansativo, com certeza dá exemplos de pobreza. Se você possuir realmente o espírito de pobreza terá que arcar com todas as consequências no seio da sociedade.

Pode usar as riquezas com generosidade e apreciá-las com discernimento, mas seja desapegado delas com heroísmo, porque elas não lhe pertencem de verdade. Deus as confiou a você para reparti-las com os pobres.

Aceite deixar, em silêncio, para outros, o lugar mais vantajoso par ao trabalho melhor remunerado, pois este é um sinal da verdadeira prática da virtude da pobreza.

Você é um administrador do Senhor. Se Ele lhe confiar muitas coisas, terá muito com que se ocupar. Se lhe confiar pouco, terá pouco com que se preocupar. Se Ele lhe tirar aquilo que lhe deu, fique satisfeito assim mesmo. Lembre-se que você é responsável apenas pelos bens que Ele confiou a seus cuidados.

A pobreza que se demonstra invejosa e crítica a respeito dos outros e guarda ressentimentos, é bem diferente da pobreza do Evangelho.

O mundo pode não notar sua obediência e sua castidade, mas reconhece facilmente se você é uma testemunha da pobreza.

“Ó Senhor, ajuda-me a ser pobre como Tu” – quantas vezes pedimos o contrário!

A expressão “a Igreja dos pobres” não significa que queiramos que as pessoas continuem pobres, mas, antes, que nós nos esforcemos para elevar o nível de vida delas em todos os aspectos.

A nossa atitude deve ser a seguinte: possuir as coisas como se nada possuíssemos. Vender, como se não vendêssemos. Comprar, comos e não comprássemos. Não ter nada, mas nos comprotarmos como se fôssemos donos de tudo. Não pedir nada, mas estar dispostos a doar tudo. Este é o espírito da pobreza.

A pobreza não significa sermos carentes de bens, o que, na realidade, constitui miséria e degradação. Pobreza, de fato, significa distribuição justa de bens materiais. Não diga: “Estou apenas tomando um cafezinho ou um copo de cerveja”, pois, às vezes, o gozo destas coisas pode ser o resultado de muita fadiga, trabalho duro e até mesmo de sacrifício dos que as produziram. Até mesmo um cigarro pode implicar o sofrimento de um trabalhador anônimo,

Na realidade, qual é a primeira pobreza? É o trabalho! Se você der ao trabalho este sentido, achará conforto na fadiga, que poderá encontrar nos compromissos diários. Assim sendo, a sua felicidade será aquela de que fala o Senhor no Evangelho: “Feliz daquele servo que o senhor, quando chegar, encontrar em seu trabalho” (L 12,43).

Quando Clara de Assis, ainda mocinha de 15 anos, chegou ao convento, São Francisco lhe perguntou: “O que procuras, vindo aqui”. Ela respondeu: “Procuro Deus”. A sua resposta foi concisa e clara. Era este o seu único tesouro, E se tornou santa. Quantos saberiam fazer a mesma escolha.

“O caminho da esperança – Testemunhar com alegria o fato de pertencer a Cristo”, François Xavier Nguyen Van Thuan, EDUSC 2000, Bauru, 206 pp; 21cm. Trad, Antônio Angonese.